segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Adaptado (afinal, é tudo meio que a mesma merda)

Meu olhar fixo não tem a menor chance com a tua cegueira. Minha cara de pau não tem a menor chance com a tua cara de cu. Meus cabelos soltos não têm a menor chance com teu rabo preso tampouco meus dedos hiperativos com as tuas mãos inertes (e como são). E minha suposta repulsa com a tua indiferença? E meu descontrole com teu ar blasé? Chance nenhuma. Meu mau humor não tem a menor chance com a tua satisfação profissional (eu diria que até pessoal) nem meus apelos com teu sono de velho caquético. Meu uísque das três da madrugada não tem a menor chance com teu sono profundo nem meus pesadelos das três da tarde com o teu recalque onírico. Meu caos pessoal não tem chance cm teu apartamento bem decorado minha veia dramática não tem a menor chance com o calor infernal da cidade em que pisas. O enorme trago de fumaça que jogo para dentro dos pulmões não tem a menor chance com a tua saúde frágil nem com a tua água (sempre) gasosa. Meus dezenove anos (ingênuos) não têm a menor chance com o teu passado ou presente nem minha pontuação preguiçosa com a bosta do teu português impecável.



Um dia eu vou acordar e vou ter recebido alta de mim mesma e vou sair vagando por aí, curada das minhas maluquices, satisfeita por ter reavido a consciência e cicatrizada de tudo aquilo que me feriu um dia.

quinta-feira, 18 de julho de 2013

O pior silêncio é aquele que fala

Poucas vezes na vida ela havia ficado sem palavras. Quando criança, era a atração principal dos jantares nos quais estava presente. Os pais organizavam com frequência reuniões no apartamento e no momento em que a sala começava a ficar inundada de adultos sérios e engravatados, ela punha seu vestido mais florido, ia para frente do espelho e por minutos ficava a pentear os cabelos com a ponta dos dedos. Quando por fim chegava à sala e disparava a falar, os adultos todos se entreolhavam admirados "essa menina tem resposta pra tudo".

Quando cresceu, não foi diferente. Não que possuísse uma autoestima minimamente invejável à maioria dos adolescentes, nem que tivesse uma visão mais nítida de futuro. Suas pretensões do que viria pela frente eram tão embaçadas quanto a de qualquer outra pessoa da sua idade e a vontade que sentia de ser livre e bem-sucedida, de nada era condizente com o medo que tinha de crescer. Em alguns momentos, apenas queria ser a menina de vestido florido, de novo, correndo por entre as pernas dos convidados e se entregando com força no colo dos pais. Mas disso, quase ninguém sabia. O que era, de fato, do conhecimento de quase todos que com ela conviviam, era que aquela menina tinha semblante de mulher. Era dona de um ar altivo, olhos um pouco tristes, e uma vontade incessante de se posicionar diante de quase todos os assuntos e situações. As palavras escapavam, simples assim.

Quando ele ligou o motor do carro, ela teve uma sensação estranha. E, por mais que existisse nela certa disposição para tentar alcançá-lo, ela continuou parada. Parada e muda. Por dentro, o grito mais alto e ainda sim sem som algum. Um grito que havia se tornado a mistura homogênea de sentimentos distintos e difusos, que imploravam amor e atenção, ao mesmo tempo que despertavam nela a vontade de esquecê-lo de uma vez por todas.

Ela nunca teve habilidade para lidar com distâncias. A que existia entre ela e as pessoas que mais amava, a distância entre a casa e a escola, entre o que era e o que transmitia aos outros. A distância entre seus olhos, que tanto a incomodava, e a distância mínima e insuportável de tanta gente que a irritava, profundamente. Mas de todas as distâncias que já sentiu, nada era como a do carro se afastando. Aquela distância que aumentava na medida em que ela permanecia inerte, e que era a mesma distância que a destruía por dentro.

Às vezes os dois compartilhavam o que sonhavam à noite. Ele sempre tinha interpretações fabulosas sobre os sonhos dela, que ela gostava de ouvir, mesmo que achasse que não tinham muito a ver. Enquanto ele falava, ela não tinha vontade de dizer uma palavra. Ela era exatamente o que era, e o que sempre quis ser. E ele era simplesmente quem ela gostaria que ele fosse.

No fundo, o silêncio era algo de que ela gostava. Por mais que antes não fosse assim, ainda que no início não tolerasse de forma alguma o espaço mudo, desejando ocupá-lo de todas as maneiras. Com o tempo, a coisa mudou. E de todos os momentos que passava ao lado dele, ela tinha uma predileção secreta pelo os que passavam em silêncio. O silêncio calmo e tranquilo da cumplicidade.

Ela não sabia dizer exatamente o momento em que o trem havia descarrilhado. Sabia que o silêncio já não era mais o mesmo, e isso a deixava aflita. Procurava insistentemente formas de preenchê-lo, mas já não conseguia. Tentava em vão balbuciar algumas palavras, na esperança de diminuir o desconforto, mas aquele era, de fato, o silêncio mais insuportável. Quis voltar no tempo, tentar fazer diferente. Mas o tempo não volta, tampouco o carro que continuava a se afastar, até sumir.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Juntando cacos

De tudo restou apenas isto: caixas com lembranças antigas, organizadas em uma ordem cronológica confusa, que ela passara a madrugada recordando sem nenhuma lágrima, folheando tudo que parecia vazio de sentido, mas repleto de sentimento. Sentiu-se paralisada por dúvidas, tomada por uma inconstância que extravasava todos os seus limites. Estava ela à margem do que entendia por si e que se dissolvia em doses densas, naquele universo que era desempacotado, aos poucos, com raiva e com zelo, medo e abnegação. Queria tacar no ventilador as recordações, tão particulares que desejava esquecer, as coisas que disseram em segredo, a pretensão idiota de quem ainda é cru diante do mundo, tudo, ela quis lançar para quem quisesse ver, fazendo acreditar que nada mais lhe era importante, já que estava escancarado. Apertou os olhos com força, tentando buscar na memória algum sentimento bom, mas não conseguiu. Vestiu então o moletom velho e furado que pertencera a ele, esperando que aquecesse, mas só lhe trouxe mais frio. Parecia inacreditável que uma roupa tão fedorenta já lhe tivesse sido uma espécie de refúgio, pedaço de um carinho diferente, capaz de protegê-la quase sempre, mas que se transformara numa peça causadora de náuseas, simplesmente. Abriu a janela com calma, reparou no silêncio da rua; quase nada parecia vivo, de nenhum dos lados. Por alguns segundos, diante da vida que corre sempre e sempre mais, pensou o que faria da sua, que naquele momento se apresentava de uma forma diferente, afinal sentia como se os pais, os primos, vizinhos e conhecidos, todos, estivessem sempre lhe fazendo essa pergunta. Sentiu-se desesperada por medo, um medo insano de não conseguir realizar mais nada sem companhia, despertando dependência justo nela, que passou a vida tentando provar ser alguém desapegado. O telefone que tocava parecia comunicar que o dia já havia começado o suficiente para que alguém pensasse nela. Atendera em um falso tom esfuziante que causara espanto em quem falava do outro lado. Quando lhe perguntaram como havia passado nos últimos tempos, sentiu-se estranha, como se aquilo fosse mais que uma pergunta habitual. Então teve vontade de chorar, subitamente. Ela, na verdade, nunca entendera esse momento, não tinha até então derramado uma lágrima, nem sentido vontade, mas com uma simples pergunta sentiu-se no ímpeto, quase aconteceu, teve que se controlar com ordens duras como "não se deixe abalar. Não aqui, não nesse momento". Desligou o telefone e foi escovar os dentes, sentindo um prazer prolongado em escovar um por um.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

"Lua nova demais"

A verdade é que é difícil crescer. Mesmo quando o curso da vida é natural, mesmo quando as coisas acontecem na ordem cronológica certa: nascer, crescer, reproduzir, etc. É difícil crescer em todas as circunstâncias e a verdade é que, a não ser que se morra antes, nunca na história se ouviu falar de alguém que não tenha passado por isso.

Com ela foi diferente, não quanto a crescer, ela cresceu da mesma forma, como qualquer outra menina ela menstruou, ganhou peitos, coragem, potência, medo. Só que, ao contrário das outras meninas, ela não teve seu tempo de ensaiar como seria ser grande, pensar nome dos filhos, carregar a boneca contra o peito. Quando perguntavam o que ela queria ser quando crescesse, ela respondia "grande", no sentido literal da palavra, sem que nela existisse nenhuma carga de sonho, esperança ou perspectiva.

Mas ainda sim era só uma garotinha de marias chiquinhas e olhos tristes, alguém que gritava por orientação e afeto da mesma forma que continua gritando. E na carência da infância e na atmosfera dos vestidos cor-de-rosa, foi obrigada a crescer rápido demais, a amadurecer antes do tempo e aprender a se acostumar com tudo mal resolvido. Conformar-se com a conformidade das coisas, com a ausência de ternura, com a vontade acesa de que tudo fosse diferente. Acostumar-se com perguntas sem resposta, com as montanhas de presentes como forma de redenção. Criança, ela quis não precisar ser tanto, não ser corpo, não ser troncos e membros, ser só mente.

Aos olhos dos outros parecia perfeita e o fato de não possuir um semblante eufórico diante dos presentes diários, a fazia parecer, sob a ótica dos que não entendem de desamor, apenas uma menina mimada e mal agradecida. Eram incapazes de perceber quem desde cedo teve que lidar com a falta, quase sempre pior que o excesso, e com a enorme frustração de não ter estabelecido vínculos.

E, como num impulso vital, fez-se mulher, correndo atrás do que nunca tivera, pondo e repondo forças para prosseguir sem pensar em como seria se lá atrás as coisas tivessem sido diferentes. Através da casca de mulher madura e bem resolvida, mora ainda a mesma garotinha de óculos gigantes, maiores que o rosto, séria e carente de afeto. No fundo, ela ainda deseja a mesma coisa: tampar os vazios nas vísceras, preenchê-los de sangue e perspectiva. Nem sempre consegue, mas nunca deixou de tentar, e na vida longa dos que ainda não chegaram aos vinte, ela caminha, tentando enxergar além de uma sucessão de dias insuportavelmente vazios.

sábado, 10 de setembro de 2011

Ela olhava atentamente a tela do computador barato, enquanto repetia o clássico movimento de uma mecha negra em torno da bic azul-marinho. Estava cansada de desconfiar que havia perdido o dom do ofício e não suportava o medo de perceber que havia feito a escolha errada. Não era possível que isso estivesse acontecendo, pensava, desde criança os sonhos eram os mesmos e, por mais que as coisas tivessem, por vezes, mudado de sentido, nunca duvidara do sonho de jornalista. Com grande parte da família havia sido assim, com o pai, com a mãe e com alguns tios também, a ideia era fixa. Hoje, com quase trinta anos, Alícia já tem suas dúvidas quanto a tal profissão, quase predestinada. Não que alguém, alguma vez, tenha a exigido alguma coisa, mas tendo crescido em um meio uniforme, nunca tinha se imaginado por outros caminhos. O irmão, dez anos mais velho, optou por matemática e de vez em quando ela ainda se pergunta se não deveria ter sido essa a sua escolha.

Alícia vive sozinha há quase quatro anos em um apartamento pequeno e bem mobiliado. Na época em que decidiu sair da casa dos pais, a mãe entrou numa profunda onda de preocupação, fazendo questão de ajudar, e muito, na compra de quase tudo que hoje compõe o apartamento. Com o salário de escritora de um blog bastante visitado e de um pequeno jornal alternativo, tenta levar as contas que não param de chegar e, sem tempo até de dar banho no gato, ela procura ler notícias de quase todas as fontes que conhece. Faz tempo que ouve o tilintar dos ponteiros no subconsciente, quase como uma bomba relógio, já não encontra brecha para nada. A secretária eletrônica a informa, quase diaramente, da falta que faz para muitos amigos, que a chamam de tudo, sumida e desnaturada, sem que entendam a dureza dos fatos.

Cansada da posição, cruzou as pernas sob a confortável poltrona do escritório e, sem progredir na matéria que dentro de poucos minutos deveria ser entregue ao jornal, puxou sem pensar um livro da dezena empilhada na mesa ao lado e, rapidamente, viu tudo se esparramar pelo chão. Levantou-se para arrumar e, enquanto agachada,fazia inúmeras auto-punições adolescentes, de forma que punia-se por isso também. Não era necessário um bom observador para perceber que a casa precisava de reformas, o piso, há pouco sintecado, já implorava por reparos e as paredes verde musgo gritavam por uma nova tintura. Havia caixotes espalhados até no banheiro, muitos com livros, alguns intocados, outros com CDs e discos de vinil.

Alícia tem olheiras roxas e profundas que denunciam meses de noites mal dormidas. Os cabelos são escuros, quase negros, a pele branca e os olhos azuis vibrantes. Quando pequena, as crianças passavam horas compenetradas, tentando desvendar a verdadeira cor dos olhos de traços orientais. Alícia jurava de pés juntos que mudavam de cor, de acordo com a claridade, mas crianças por vezes teimam em definir o que não se deve. Com doze anos já era leitora assídua de vários jornais e, aos dezesseis e meio entrou na Faculdade Federal, sem nem ao menos imaginar a inépcia com a qual se depararia futuramente.

Ainda indisposta, Alícia voltou ao computador e, a fim de despertar os sentidos, entornou uma xícara de café sem açúcar. O telefone de casa tocou e, com medo de ser o editor, cobrando o trabalho que deveria estar pronto, não atendeu. A página ainda estava em branco, branco-angústia, como costumava chamar, e não fazia a menor ideia de como dizer isso. Quando a ligação entrou na caixa postal, ouviu a voz da avó, de quase oitenta anos, que a envolveu com palavras ternas e a fez despertar de uma solidez rígida, uma impermeabilidade rara que ultimamente tomara conta de seu subconsciente.

O telefone tocou novamente, era o editor. Alícia atendeu, disse que não havia nem começado, e desligou. Sentiu-se fraca, tola, um tanto impulsiva e adolescente. Podia sentir as oportunidades escapando pelos dedos. Mas ela sabia que era forte e, pela primeira vez em anos, fez o que teve vontade. Pegou uma garrafa de vodka, bebeu um longo gole e atirou-se ao chão, obedecendo suas vontades e permitindo-se ficar quieta por alguns instantes.

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Olhando para todos os lados

Hoje, na volta para casa, me peguei pensando em questões completamente melancólicas. Daquelas realmente tristes, que chegam a doer no peito, passando longe da tristeza necessária que todos nós às vezes sentimos. Realmente acordei em um dia "daqueles", quando minha única vontade era continuar deitada, quieta e reflexiva. No máximo assistiria a um filme ou comeria alguma coisa, já que não escapo do típico quadro de gorda tensa. Mas tive que levantar, sair, passar o dia todo fora. E, pra variar, ainda tive a proeza de esquecer meu fone de ouvido. Mas eu saí, cumpri com todos os meus afazeres e aí sim pude voltar pra casa, ainda carregando aquele sentimento azedo e nada agradável comigo. Sem aquilo de querer menosprezar a juventude atual, até porque faço parte dela, mas eu só conseguia me perguntar como o mundo conseguiu chegar onde chegou. Não culpo a juventude porque simplesmente não consigo enxergar culpados nesse caso. E, quando falo do mundo, estou me referindo a ele por inteiro, e isso inclui todos nós, desde crianças até os mais idosos. Idosos que podem até ter vivido tempos melhores, mas que parecem ter esquecido como é viver em um mundo tão mais... Humano. E eu acho que é disso que o planeta está precisando, de humanidade. Respeito, amor, compaixão, tolêrancia. Sentimentos genuinamente nossos e, portanto, não devemos ter medo de redescobrí-los. Estou cansada de saber das notícias que correm mundo afora. E, não indo tão longe, estou cansada de ver o que está aí, bem diante dos meus olhos, e não conseguir fazer nada. Estou simplesmente esgotada dessa gente que insiste em ignorar o que está tão evidente. Certamente seria mais fácil se eu fizesse o mesmo e juro, já tentei. Mas não adianta, negar uma realidade que me vem com tanta intensidade não é da minha natureza. Estou cansada de esbarrar com quem carrega tanta agressividade consigo. Com aqueles que usam e abusam da grosseria, gratuitamente. Antes eu me achava muito esquisita por ter 16 anos e estar constantemente envolvida numa nostalgia amarga do tempo que sequer conheci. Mas agora, ando me acostumando com essa minha pretensão de mudar o mundo. Talvez o que realmente sinto é uma certa conformidade, em tudo. Como se, apesar de incomodados, permanecêssemos inertes. Estou de saco cheio de ver tanta gente assustada, grilada e alerta. Gente que está sempre com um pé atrás em relação ao outro. Precisamos de pessoas que saibam enxergar quem está em volta. Que saibam ver os direitos e sentimentos que vão além do próprio umbigo. Precisamos de gente que olhe pro outro com mais cuidado. Hoje acordei mesmo mal e, pelo visto, dormirei da mesma forma. Mas não quero deixar de acreditar no dissipar da tristeza e na esperança de que amanhã as coisas possam mudar. E que eu possa acompanhar essa mudança e sorrir com ela, da mesma forma que agora estou triste. Venho aqui a favor de um mundo mais bonito.

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Isso não é um adeus

Se você estiver com tempo, peço que leia tudo o que eu tenho pra te dizer. Mas se você estiver ocupado, dobre o que tem em mãos, guarde, e depois, quando achar uma brecha, leia, mas só faça isso quando realmente tiver tempo, para que possa dedicar toda a sua atenção às minhas palavras. Só te peço que não jogue isso aqui de lado, que não coloque em um daqueles seus esconderijos que nem eu, nem você, nem ninguém, conseguimos achar depois. Vim apenas te dizer que finalmente superei sua ausência. Que não estou mais como estava desde aquele dia em que cheguei no prédio e cruzei com você na portaria, de mala e cuia, indo embora da minha vida sem ao menos me comunicar. Sei que você sabe como eu estive sem você durante todo esse tempo, mesmo que você não tenha atendido sequer uma das minhas milhares de ligações. Sei que você sabe que permaneci sozinha, apenas esperando a campainha, o telefone, ou o celular tocar. Esperava pois queria perceber que construímos algo juntos, mas, depois de anos esperando pelo o que nunca aconteceu, percebi que na realidade nada foi construído. Se a nossa relação tivesse significado algo pra você, você teria ao menos me atendido alguma vez, pra saber como eu ando, se ainda respiro, se eu ainda tenho o que comer. Sim, porque depois que você saiu eu fiquei desestruturada, em todos os sentidos, não tendo conseguido pagar nenhuma das minhas contas. Isso porque você insistiu a vida inteira para que eu não trabalhasse e eu, apaixonada e consequentemente iludida, dediquei minha existência toda e exclusivamente a você, abrindo mão da minha independência financeira e emocional. E quando você se cansou e resolveu ir embora, porque foi isso o que aconteceu, tive que recorrer aos meus pais, voltar a morar com eles, depois de tantos anos, para voltar à faculdade, conseguir um trabalho e depois, após muito suor, quitar meu apartamento. E durante todo esse tempo, tentando superar o que aparentemente era insuperável, permaneci sozinha, pois todos os nossos amigos, depois da separação, simplesmente deixaram de ser os nossos amigos, e passaram a ser somente seus. Confesso que nunca pensei que as coisas seriam assim. Uma relação tão boa como a nossa parecia ser, nunca poderia terminar como terminou. Mas sim, terminou, e minhas ilusões transformaram-se subitamente em desilusões, e todos os meus planos e expectativas desceram pelo ralo. Acho que grande culpa disso tudo foi minha. Não que você nunca tenha dito e feito coisas que me fizessem acreditar da veracidade do seu amor, mas, você sabe, eu sempre fui de criar expectativas e viver numa dessas utopias completamente imersivas. Todos dizem que o certo é não criar expectativas, assim a decepção não corre risco de acontecer, mas, afinal, quem é aquele que se entrega numa relação, sem que crie uma série de abobrinhas na cabeça? Você também é assim, eu sei, mas a diferença é que eu sempre correspondi às suas expectativas e talvez, se não fosse assim, você ainda me amasse. Mas não, você sempre desprezou o que é fácil pra você, e correu atrás do que parece mais difícil. É tão mais gostoso, não é? E talvez seja por isso que você sempre sustentou relações em paralelo à nossa, sem que eu nunca tenha me pronunciado, mesmo que soubesse. É bem mais fácil acreditar que tudo anda às mil maravilhas. Bem, depois de ter falado tanto, parece que estou lhe provando o contrário do que vim lhe dizer. Parece que não te superei coisa nenhuma e que continuo louca por você. Mas não,só estou te dizendo tudo o que já parecia estar enterrado, pois você nunca me deu a oportunidade de expressar o que eu sinto. Eu posso não ter te esquecido, eu posso ainda amar você, mas já superei a sua ausência. Já não olho a sua foto todas as noites e imploro para um Deus, no qual nem acredito, para que volte. Já não te ligo e desligo só para escutar sua voz e saber que está tudo bem. Sim, eu sei que você sempre soube que era eu, mas na verdade, nunca me preocupei com isso. O que quero lhe dizer é que não te coloco mais como minha prioridade. A verdade é que, o que quero mesmo lhe dizer, é que com a dor, tive que aprender a reconstruir toda uma vida. Tive que encontrar novos amigos, me entender melhor com meus pais, rever uma série de valores. Passei a ler livros de autores que antes desconhecia e apreciar artes que hoje já não vivo sem. Te digo tudo isso pois amanhã estou indo viajar e dessa vez não volto tão cedo. Vou a trabalho, mas tenho certeza que essa experiência será muito boa pra mim. E isso não é um adeus, de forma alguma. Eu realmente espero que a gente possa se reencontrar um dia e que possamos sair como amigos. Ou não. Eu sei que acabei saindo ferida com toda essa história, mas sei que pra você também não foi fácil. Nunca entendi seus motivos, aliás, eu não soube de nenhum deles por você. Mas eu vivi ao seu lado e sei que, por trás dessa pessoa dura que você deixa transparecer, existe alguém que só não sabe conciliar o que sente. Eu não queria ir embora sem escutar nada de você... Bom, já está tarde, escrevi demais e minha vista já está cansada. Fica bem. Se cuida.